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Herança 4 de 6

Separação de poderes

Montesquieu e a engenharia contra a tirania

Legislar, executar e julgar em esferas que se freiam.

Antes de Montesquieu, o poder era pensado como uma coisa só, concentrada na mão de quem mandava. Em “Do Espírito das Leis”, ele formulou a observação que mudou a arquitetura dos Estados: quem acumula o poder de fazer as leis, executá-las e julgar os conflitos tem em mãos tudo o que é preciso para a tirania — mesmo que tenha começado com boas intenções.

A solução não é escolher pessoas melhores, é montar a máquina melhor. O Legislativo faz as leis mas não as aplica; o Executivo as aplica mas não as inventa nem julga; o Judiciário julga sem legislar nem comandar. Cada esfera tem ferramentas para conter as outras: veto, impeachment, controle de constitucionalidade, orçamento. O poder freia o poder.

O desenho provou seu valor nos momentos de crise. Regimes autoritários, do século XX para cá, quase nunca nascem abolido a constituição de uma vez: começam corroendo os freios — intimidando juízes, esvaziando parlamentos, atacando a imprensa que fiscaliza, concentrando decretos. A separação de poderes raramente cai de uma vez; ela é desmontada peça por peça, com aparência de legalidade.

Por isso o princípio exige manutenção constante. Tribunais independentes, parlamentos com poder real e imprensa livre não são burocracia lenta nem obstáculo à eficiência: são a estrutura que impede que a vontade de um se torne a lei de todos.

O que fica deste princípio

Quando um governante chama os freios institucionais de atraso, ele está anunciando exatamente para que servem.